
Depois do bem sucedido 1602, Neil Gaiman regressa ao universo Marvel com uma mini-série que recupera as criações cósmicas dos anos 70 de Jack Kirby.
Na linha da continuidade imaginada por Kirby (mas ignorando por completo o mais recente revamp de Chuck Austen), Gaiman reintroduz os principais membros da casta de super-seres criados pelos Celestiais, em particular os mais conhecidos Ikaris, Makkari, Sersi e Athena. Estes encontram-se na Terra e parte deles não tem qualquer memória da sua verdadeira identidade e da sua natureza como Eternos, pelo que Ikaris (na sua identidade humana de "Ike Harris") procurará contactá-los e convencê-los da realidade.
A abordagem de Gaiman é surpreendentemente conservadora, com um primeiro número que serve de capítulo introdutório, dentro de parâmetros narrativos contidos que não vai muito além da introdução dos personagens e de uma recapitulação da história dos Eternos, desde à sua criação pelos Celestiais à guerra com os Deviantes. De qualquer forma, a capacidade descritiva de Neil Gaiman vem ao de cima com a sua usual narrativa eloquente que define e caracteriza capazmente a essência dos personagens.
A arte de John Romita Jr., como seria de esperar, é quase irrepreensível. Romita é desde há vários anos um dos melhores narradores visuais da indústria, alicerçado numa impecável composição de página e fundamentos artísticos consolidados ao longo de uma carreira que já dura, imagine-se, há perto de 30 anos! A double-spreadpage das páginas 2 e 3 é particularmente impressionante, conferindo toda a grandiosidade típica do Rei Jack Kirby. A arte-final de Danny Mikki e Tim Townsend respeita competentemente o traço de Romita, embora, na minha óptica, só arte-finalistas do calibre de Klaus Janson ou Al Williamson sejam capazes de conferir o toque orgânico e visceral que melhor se adequa ao traço de John Jr.
E, já que menciono visceral, há algo que me deixa uma sensação de incómodo com a série, algo que já me sucedera com 1602. De algum modo, a escrita de Neil Gaiman, talvez porque intimista e tantas vezes cínica, assenta-me sempre melhor quando a arte que a acompanha é mais suja, mais orgânica, mais visceral. Dos vários volumes de Sandman, aqueles que mais me agradaram foram precisamente os ilustrados dentro desse estilo, nomeadamente por artistas como Mike Dringenberg ou Jill Thompson. E, francamente, nunca consegui compreender as queixas em relação à qualidade da arte de Sandman! Quando alguém me dizia que a arte era fraca, sempre retorqui "Com uma história deste estilo, queriam o quê? J.Scott Campbell!?".
Daí, creio que Neil Gaiman não "casa" na perfeição com o universo Marvel, até porque fica sempre a sensação que estamos perante um Gaiman em piloto-automático, a cumprir serviços mínimos. Não que Eternals seja fraco, longe disso. Gaiman em piloto-automático é, ainda assim, melhor que a a grande maioria dos escritores da indústria. Só que, exactamente por ser ele, não consigo disfarçar que esperava algo mais.
Comentários
Fora de brincadeiras, ainda nao li Eternals, mas Gaiman e Romita Jr, juntos, mesmo que seja o mais fraco trabalho de ambos... deve ser digno de nota!
Já quanto ao Klaus Janson, discordo. Aliás, creio que ele só serve para arte-finalista do Frank Miller, e provavelmente por o ter conhecido como tal (e também no Moon Knight desenhado pelo Bill Sienkiewicz - mas já aí se passa o mesmo do que vou referir já de seguida). Mas isto é um elogio a Janson. Ele tem um estilo único, extraordinário, que acaba por se mesclar com os desenhos de quem arte-finaliza. Fica algo de hibrído, e não gosto, já que os dois estilos ficam demasiado visíveis, e nenhum se superioriza a 100 por cento. Klaus Janson é demasiado bom para arte-finalista. Mas parece não se importar em desperdiçar talento a arte-finalizar outros desenhadores. Aliás o mesmo se aplica ao Bill Sienkiewicz. Já agora, este post pode servir como crítica aos puristas que exclusivamente só apreciam a BD franco-belga ou de autor (vulgo independente), que usam como argumento o facto de a BD de super-heróis ser feita em conjuntos de vários artistas. Como se esse facto fosse apanágio apenas da BD mainstream americana, e não se passasse o mesmo em tantas artes. No entanto, os trabalhos em conjunto de desenhador e arte-finalista deixaram-nos tantas obras de nível autoral tão grande, e de trabalhos não de produção industrial mas da mais pura parceria artística. Mais alguns exemplos: o Frank Miller com o Terry Austin, num dos números finais do Daredevil (a história da roleta russa com o Bullseye), o mesmo Terry Austin com o John Byrne, o John Buscema com o Alfredo Alcala e o Tony de Zuñiga na Savage Sword of Conan. E tantos outros...