
Assim, vou estrear esta rubrica com CASANOVA #1, uma nova série da Image, escrita por Matt Fraction e desenhada pelo brasileiro Gabriel Bá. Casanova é mais uma publicação da Image ao estilo de Fell, de Warren Ellis e Ben Templesmith, em que cada edição de 16 páginas conta uma história completa, ao módico preço de $1.99!
Casanova Quinn é um mercenário de luxo e é também , por acaso, filho de Cornelius Quinn, director supremo da E.M.P.I.R.E., a força internacional de manutenção de paz. Neste primeiro número, a irmã gémea de Casanova, Zephyr, (igualmente por acaso) a principal agente da E.M.P.I.R.E., é encarregada de investigar um distúrbio no contínuo espaço-temporal e acaba por colidir com os interessos do seu renegado irmão.
Até aqui, nada de novo, pensarão alguns. Pois, a ideia poderá não ser particularmente original, mas a execução é óptima!, e isso faz toda a diferença, até porque hoje em dia já ninguém inventa (praticamente) nada. A história tem óbvias raízes num estilo de aventuras popularizado por Nick Fury, nomeadamente durante a era Jim Steranko. A narrativa na primeira pessoa do protagonista coloca-nos dentro do personagem, um indivíduo egocêntrico e pouco escrupuloso, com quem dificilmente iremos simpatizar. O salto entre realidade paralelas e a inesperada reviravolta final exigem uma leitura atenta, mas deveras gratificante.
A arte de Gabriel Bá aproxima-se claramente do argentino Eduardo Risso, mestre do jogo de contrastes, com um toque aqui e ali de Mike Mignola. Para além do preto e do branco, a arte conta apenas com mais uma cor, um verde escuro musgo, habilmente aplicado para conferir um ambiente tenso e denso à narrativa. Destaque ainda para o magnífico design da capa, algo em que as grandes editoras, nomeadamente a Marvel, deveria pôr os olhos, tal a habitual pobreza estética reinante.
Quando terminei a leitura da história propriamente dita, e ao ler o postfácio do escritor, qual não foi a minha surpresa ao verificar que o comic tinha apenas 16 páginas. Demorei mais tempo a lê-lo, acreditem, do que dois ou três números de algo tipo New Avengers. A quantidade de coisas que se passam e o ritmo vertiginoso da narrativa são um feito para uma quantidade aparentemente tão reduzida de páginas. A trama está compactada num estilo que Grant Morrison apelidou de Super-Compressão e que está a usar em All Star Superman, à semelhança do que Warren Ellis está a fazer com o mencionado Fell, e do que eu próprio estou a utilizar no tal projecto que estou a desenvolver (e perdoem-me a ousadia de me incluir em tão ilustre companhia).
Em resumo, um comic para se ler e disfrutar integralmente, sem tiques e truques narrativos dilatórios, tantas vezes usados apenas para estender a história e encaixá-la numa edição compilada que fique bem na estante.
Comentários
Ellis e Morrison mostram mais uma vez que para se ser bom é necessário dar o devido valor aos grandes trabalhos do meio. Mas os grandes trabalhos em termos de qualidade e inovação, ao contrário da Marvel e DC que apostam nos "grandes" trabalhos com as suas figuras.
Os escritores tarefeiros (Bendis, Brubaker, Geoff Johns, Daniel Way, etc) cada vez mais são simplesmente uns fanboys que escrevem, que têm todos os meios à sua disposição e fazem trabalhos que não perduram no tempo e que são de ler e esquecer rapidamente.
Por falar em grandes trabalhos com as suas figuras, a Marvel devia colocar todos os seus escritores de X-Men a fazer como TPC, estudo elaborado da saga New X-Men. Mas como o Wolverine não está com uma depressão ou a Emma Frost não parece uma menina do colégio, o melhor é esquecer esta parte da história recente e pedir ao Brubaker para trazer o terceiro irmão que afinal está vivo e que se chama Vulcan e que tem direito a 12 números de história. Xiça...